Estabelecer o acordo de coaching

Por o 14 Outubro 2015

Propomo-nos neste espaço, refletir sobre as competências centrais de coaching da ICF, procurando aprofundar o nosso conhecimento sobre este grande legado da ICF para o coaching profissional a nível global. De todas as competências centrais da ICF, quando se trata de dar estrutura à conversação de coaching, a competência “Estabelecer o acordo de coaching” talvez seja mesmo a mais importante. Neste texto identificamos alguns contributos das várias áreas de “saberes” na competência “Estabelecer o acordo de coaching”.


As Competências Nucleares da ICF –  Estabelecer o acordo de coaching

 

Propomo-nos neste espaço, refletir sobre as competências centrais de coaching da ICF (International Coach Federation), procurando aprofundar o nosso conhecimento sobre este grande legado da ICF para o coaching profissional a nível global.

 

Perguntei, há muito pouco tempo, durante o decorrer de uma formação, qual a diferença entre “falar” e “conversar”. Do que surgiu, o termo “propósito”, enquanto elemento distintivo da conversa, captou a minha atenção. Quanto a “falar”, dizia alguém a sorrir, até podemos falar sozinhos.

 

A conversação (como tanto gosto de a chamar) de coaching é uma conversa formal. Tem um propósito e uma estrutura muito bem definida. Curiosamente, ao contrário do que aparentemente se possa julgar, esta estrutura tem como objetivo proporcionar um amplo espaço de liberdade aos seus intervenientes que, depois de algum treino, podem dar asas à sua criatividade, espontaneidade e inspiração que são tão bem caracterizam o coaching, enquanto processo de desenvolvimento humano. Esta matriz, proporcionada pelas competências centrais da ICF, funcionam como uma bússola que nos indica a direção para onde queremos ir, sem nunca nos limitar na escolha dos caminhos e, como sabemos que não nos perdemos, sentimo-nos livres para explorar as peculiaridades da viagem.

 Coaching

 

De todas as competências centrais da ICF, quando se trata de dar estrutura à conversação de coaching, a competência “Estabelecer o acordo de coaching” talvez seja mesmo a mais importante.

 

Costumo dizer que, para “termos” coaching, temos que ter:

  1. Um coach capaz e envolvido;
  2. Um coachee disposto a gastar uma grande quantidade de energia para um processo de mudança interna;
  3. E um objetivo de coaching, extraordinário, importante e significativo.

 

É através da (boa) prática da competência “Estabelecer o acordo de coaching” que encontramos este terceiro elemento e, sem o qual a conversação de coaching perde sentido, importância e profundidade.

 

Definição da competência “Estabelecer o acordo de coaching” pela ICF

A ICF define a competência “Estabelecer o acordo de coaching”, como a capacidade para compreender o que é exigido na interação específica de coaching e para chegar a acordo com o novo cliente acerca do processo e da relação de coaching. Tem duas dimensões principais: a primeira, é relativa ao que se acorda para todo o processo de coaching e a segunda, refere-se ao que se estabelece para cada sessão de coaching.

Sobre a primeira destas dimensões, o “Contrato Formal de Coaching”, sob a sua forma escrita, assume uma importância fundamental e será alvo de um futuro artigo.

Sobre a segunda dimensão, onde centraremos a partir de agora a nossa atenção, vale a pena considerar os recém aperfeiçoados marcadores específicos do uso das competências ICF para o nível de credenciarão PCC. Estes marcadores foram agora revistos e partilhados no site da ICF internacional, equipando-nos com uma renovada referência central através da qual se torna mais fácil fazer aferições entre os vários níveis de efetividade em coaching.

 

Marcadores específicos do uso das competências ICF (nível de credenciarão PCC)

Marcador 1 – O coach ajuda o cliente a identificar, ou a confirmar, o que pretende obter na sessão de coaching.

Marcador 2 – O coach ajuda o cliente a definir, ou confirmar, as medidas de sucesso face ao que pretende obter na sessão.

Marcador 3 – O coach explora a importância ou significado para o cliente, daquilo que pretende obter na sessão.

Marcador 4 – O coach ajuda o cliente a definir o que acha ser necessário abordar, explorar ou resolver para atingir aquilo que pretende obter na sessão.

Marcador 5 – O coach dirige a conversação na direção do resultado pretendido pelo cliente, a não ser que este lhe indique o contrário.

 

O coaching, já antes o referi, integra uma impressionante variedade de abordagens ou de “escolas”. Mais como uma prática, do que como uma disciplina, o coaching não detém um corpo formal de conhecimento e sustenta a sua integridade através do desenvolvimento da efetividade na prática das suas competências centrais. Todos os corpos de conhecimento formais ou disciplinas nos interesses nesta senda da excelência em coaching e, olhando com alguma sensibilidade, conseguimos identificar alguns possíveis contributos destas várias dimensões de “saberes” na competência “Estabelecer o acordo de coaching”. Vejamos…

 

Contributos de várias áreas de “saberes” na competência “Estabelecer o acordo de coaching

 

No domínio da criatividade

Robert Fritz em The path of least resistancerefere que a pergunta vital para o processo criativo é “O que eu quero criar?”. Fundamentando que nada tem a ver com o processo de “Resolução de problemas”, nem sequer com o da “Geração de alternativas”, defende que o processo criativo deriva da conceção original daquilo que queremos criar, em termos de realidade prática, ou seja, idealizando os resultados pretendidos. O pensamento criativo começa pelo estabelecimento da visão e os marcadores 2 e 3 são fundamentais para romper a barreira da lógica “onde posso chegar, em função dos recursos que disponho?” para “como me transformo para criar o que quero eu criar”.

 

No domínio da gestão

Peter Drucker encorajava os líderes a deixar os problemas a “pão e água”, convidando-os a concentrarem toda a sua energia naquilo que a equipa seria capaz de fazer, ao invés de enfocarem a sua atenção nas suas dificuldades, incapacidades ou fraquezas. Todos os marcadores se harmonizam (à semelhança do que acontece em todos os domínios a que nos referiremos de seguida) para colocarem a atenção do coachee dentro do seu “locus interno” de ação.

 

No domínio da Gestão de Talentos

Várias são as investigações que apontam para um ROI significativamente superior em investimentos de desenvolvimento RH centrados nos talentos (forças, pontos fortes, etc), ao invés daqueles tradicionalmente centrados nos gaps. Parece que o negócio de dar expressão ao que as pessoas têm de melhor é mais rentável do que o negócio de as ajudar a resolver os seus supostos problemas.

 

Por outro lado, começam também a surgir rumores de “escolas de coaching” que, em supervisão, trabalham exclusivamente o reforço positivo sobre aquilo em que o coach é eficaz, ignorando completa, consciente e fundamentadamente, aquilo em que ele não mostra ser efetivo. Esta partilha tem originado conversas apaixonantes e aberto a novas possibilidades sobre os diferentes caminhos pedagógicos na formação de coaches profissionais.

 

Costumo dizer aos meus clientes, a jeito de brincadeira, que “a ficarem ricos, há-de ser à custa dos seus talentos e não dos tais “pontos de melhoria” de que tanta gente fala. Por mim, ficam também a “pão e água”; em coaching, só faço perguntas sobre o que querem criar!

 

No domínio da espiritualidade

De um modo geral, todas as grandes doutrinas neste domínio referem a intenção e o amor (lato sensu) como a grande força criadora por detrás de toda ação humana. Uma mente concentrada e pura nos seus motivos é a maior das forças impulsionadoras que conseguimos perceber. Apesar das diferentes linguagens, parece-me claro o apelo para nos concentrarmos naquilo que queremos criar e para pararmos de dar energia ao que não queremos ou desejamos.

 

No domínio da Filosofia e da Linguística

Nietzsche afirmava que “é no ser humano que a criatura e o criador se unem”. O papel da linguagem já não é apenas passivo ou descritivo; a linguagem não permite apenas descrever a realidade mas também criar realidades. Estamos agora muito mais conscientes não só do papel criativo da linguagem mas também da forma como a linguagem se relaciona com o próprio pensamento.

 

O que fazemos reflete o que somos mas também cria o que somos. O nosso comportamento é revelador da pessoa que somos mas, como seres pensantes e criativos, podemos também propor atitudes que ainda não possuímos. Adicionalmente, “basta-nos” o compromisso, de corpo e alma, para agirmos em conformidade com a pessoa em que nos queremos tornar.

 

Na ontologia da linguagem diz-se que “Quando afirmamos algo, adaptamo-nos ao mundo, Quando declaramos algo, adapta-se o mundo a nós”. Não há nenhuma declaração mais poderosa do que aquela que se refere a quem precisamos ser, para sermos capazes de nos comportar da maneira necessária para produzirmos os resultados que desejamos.

 

Esperemos que este nosso primeiro artigo na senda do aprofundamento da compreensão das competências centrais da ICF tenha trazido valor acrescentado.

Quer brindar-nos com alguma pergunta?

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