O blog de Coaching

As expectativas não são para corresponder!

Só os compromissos devem ser correspondidos. As expectativas são uma tremenda fonte de sofrimento no mundo. Transportam, com elas, um enorme potencial para a frustração.

 

Costumo dizer que não me sinto no dever de corresponder às expectativas que os outros criam sobre mim, sinto apenas o dever, imperativo, de honrar os compromissos que assumo perante eles.

A vida seria tão mais fácil se, em vez de se criarem tantas expectativas acerca dos outros e de como eles se deveriam comportar connosco, procurássemos antes estabelecer, com eles, compromissos, recíprocos, acerca de como nos deveríamos comportar nas nossas relações.

 

Ofertas e pedidos, explícitos e partilhados, seriam então o principal motivo de conversa, em vez das tão, infelizmente, habituais queixas sobre o que deveria ter acontecido na relação, e não aconteceu. Nem poderia ter acontecido, uma vez que não existe maneira (conhecida até agora) de alguém conseguir adivinhar o que corre, ao outro, em pensamento.

Não há duas pessoas iguais, nunca houve e (fazendo de vidente do evidente) nunca vai haver. Apesar desta condição, aparentemente tão óbvia, que existe entre os humanos, muitos de nós comportam-se, paradoxalmente, como se fosse óbvio e natural, para os outros, adivinharem os seus desejos mais íntimos, sem que uma palavra seja dita. Para bom entendedor, defendem, meia palavra basta.

 

Fazem lembrar o célebre anúncio do Ferrero Rocher (de 1995, imaginem). “Ambrósio, apetece-me algo…”. E no anúncio resulta. Na televisão parece que basta.

Mas na vida real não basta! Às vezes nem na nossa casa basta, entre a nossa própria família, onde a proximidade física e genética deveria ajudar. Nem sequer nas relações românticas parece bastar, onde seria suposto que a “metade da cara” soubesse o que “passa” na “outra metade”. Imagine-se, então, o que se passa em ambiente profissional, nesse espaço em que é absolutamente vital coordenarmos ações e onde, cada vez mais, se cultiva a diferença e a complementaridade. Num ambiente onde se começam a ouvir coisas como “numa equipa em que duas pessoas pensam de igual maneira, uma, pelo menos, é redundante!”.

 

A frustração parece uma inevitabilidade no mundo das expectativas, independentemente de quem assumiu, para as criar, um papel ativo ou passivo. Parece que a frustração tanto “apanha” aquele que criou a expectativa e não foi correspondido, como o “outro” que, não percebendo muito bem o que se passou, não se livra do sentimento de depreciação e de impotência para inverter o processo.

Lamento, pelos amantes da “meia palavra basta”, mas é tempo de deixarmos as expectativas a “pão e água” e alimentarmos relações e conversas que levem a compromissos mútuos, recíprocos. É tempo de deixarmos o sofrimento implícito e de passarmos ao compromisso explícito. É tempo de palavra e de honra. E, sobretudo, é tempo de deixarmos a capa do “ser forte e independente” nas relações, para passarmos a adotar uma atitude vulnerável e interdependente. Só assim conseguiremos adotar um posicionamento relacional onde se torna possível pedir e oferecer, que são as únicas pontes conhecidas para o compromisso.

 

O que tem isto a ver com coaching?

 

Sempre que um coachee fala em expectativas, um coach, pensa em compromissos.