Só os compromissos devem ser correspondidos. As expectativas são uma tremenda fonte de sofrimento no mundo. Transportam, com elas, um enorme potencial para a frustração.
Costumo dizer que não me sinto no dever de corresponder às expectativas que os outros criam sobre mim, sinto apenas o dever, imperativo, de honrar os compromissos que assumo perante eles.
A vida seria tão mais fácil se, em vez de se criarem tantas expectativas acerca dos outros e de como eles se deveriam comportar connosco, procurássemos antes estabelecer, com eles, compromissos, recíprocos, acerca de como nos deveríamos comportar nas nossas relações.
Ofertas e pedidos, explícitos e partilhados, seriam então o principal motivo de conversa, em vez das tão, infelizmente, habituais queixas sobre o que deveria ter acontecido na relação, e não aconteceu. Nem poderia ter acontecido, uma vez que não existe maneira (conhecida até agora) de alguém conseguir adivinhar o que corre, ao outro, em pensamento.
Não há duas pessoas iguais, nunca houve e (fazendo de vidente do evidente) nunca vai haver. Apesar desta condição, aparentemente tão óbvia, que existe entre os humanos, muitos de nós comportam-se, paradoxalmente, como se fosse óbvio e natural, para os outros, adivinharem os seus desejos mais íntimos, sem que uma palavra seja dita. Para bom entendedor, defendem, meia palavra basta.
Fazem lembrar o célebre anúncio do Ferrero Rocher (de 1995, imaginem). “Ambrósio, apetece-me algo…”. E no anúncio resulta. Na televisão parece que basta.
Mas na vida real não basta! Às vezes nem na nossa casa basta, entre a nossa própria família, onde a proximidade física e genética deveria ajudar. Nem sequer nas relações românticas parece bastar, onde seria suposto que a “metade da cara” soubesse o que “passa” na “outra metade”. Imagine-se, então, o que se passa em ambiente profissional, nesse espaço em que é absolutamente vital coordenarmos ações e onde, cada vez mais, se cultiva a diferença e a complementaridade. Num ambiente onde se começam a ouvir coisas como “numa equipa em que duas pessoas pensam de igual maneira, uma, pelo menos, é redundante!”.
A frustração parece uma inevitabilidade no mundo das expectativas, independentemente de quem assumiu, para as criar, um papel ativo ou passivo. Parece que a frustração tanto “apanha” aquele que criou a expectativa e não foi correspondido, como o “outro” que, não percebendo muito bem o que se passou, não se livra do sentimento de depreciação e de impotência para inverter o processo.
Lamento, pelos amantes da “meia palavra basta”, mas é tempo de deixarmos as expectativas a “pão e água” e alimentarmos relações e conversas que levem a compromissos mútuos, recíprocos. É tempo de deixarmos o sofrimento implícito e de passarmos ao compromisso explícito. É tempo de palavra e de honra. E, sobretudo, é tempo de deixarmos a capa do “ser forte e independente” nas relações, para passarmos a adotar uma atitude vulnerável e interdependente. Só assim conseguiremos adotar um posicionamento relacional onde se torna possível pedir e oferecer, que são as únicas pontes conhecidas para o compromisso.
O que tem isto a ver com coaching?