As expectativas não são para corresponder!

Por o 10 Abril 2018

Só os compromissos devem ser correspondidos. As expectativas são uma tremenda fonte de sofrimento no mundo. Transportam, com elas, um enorme potencial para a frustração.

 

Costumo dizer que não me sinto no dever de corresponder às expectativas que os outros criam sobre mim, sinto apenas o dever, imperativo, de honrar os compromissos que assumo perante eles.

A vida seria tão mais fácil se, em vez de se criarem tantas expectativas acerca dos outros e de como eles se deveriam comportar connosco, procurássemos antes estabelecer, com eles, compromissos, recíprocos, acerca de como nos deveríamos comportar nas nossas relações.

 

Ofertas e pedidos, explícitos e partilhados, seriam então o principal motivo de conversa, em vez das tão, infelizmente, habituais queixas sobre o que deveria ter acontecido na relação, e não aconteceu. Nem poderia ter acontecido, uma vez que não existe maneira (conhecida até agora) de alguém conseguir adivinhar o que corre, ao outro, em pensamento.

Não há duas pessoas iguais, nunca houve e (fazendo de vidente do evidente) nunca vai haver. Apesar desta condição, aparentemente tão óbvia, que existe entre os humanos, muitos de nós comportam-se, paradoxalmente, como se fosse óbvio e natural, para os outros, adivinharem os seus desejos mais íntimos, sem que uma palavra seja dita. Para bom entendedor, defendem, meia palavra basta.

 

Fazem lembrar o célebre anúncio do Ferrero Rocher (de 1995, imaginem). “Ambrósio, apetece-me algo…”. E no anúncio resulta. Na televisão parece que basta.

Mas na vida real não basta! Às vezes nem na nossa casa basta, entre a nossa própria família, onde a proximidade física e genética deveria ajudar. Nem sequer nas relações românticas parece bastar, onde seria suposto que a “metade da cara” soubesse o que “passa” na “outra metade”. Imagine-se, então, o que se passa em ambiente profissional, nesse espaço em que é absolutamente vital coordenarmos ações e onde, cada vez mais, se cultiva a diferença e a complementaridade. Num ambiente onde se começam a ouvir coisas como “numa equipa em que duas pessoas pensam de igual maneira, uma, pelo menos, é redundante!”.

 

A frustração parece uma inevitabilidade no mundo das expectativas, independentemente de quem assumiu, para as criar, um papel ativo ou passivo. Parece que a frustração tanto “apanha” aquele que criou a expectativa e não foi correspondido, como o “outro” que, não percebendo muito bem o que se passou, não se livra do sentimento de depreciação e de impotência para inverter o processo.

Lamento, pelos amantes da “meia palavra basta”, mas é tempo de deixarmos as expectativas a “pão e água” e alimentarmos relações e conversas que levem a compromissos mútuos, recíprocos. É tempo de deixarmos o sofrimento implícito e de passarmos ao compromisso explícito. É tempo de palavra e de honra. E, sobretudo, é tempo de deixarmos a capa do “ser forte e independente” nas relações, para passarmos a adotar uma atitude vulnerável e interdependente. Só assim conseguiremos adotar um posicionamento relacional onde se torna possível pedir e oferecer, que são as únicas pontes conhecidas para o compromisso.

 

O que tem isto a ver com coaching?

 

Sempre que um coachee fala em expectativas, um coach, pensa em compromissos.

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Ana Sousa Desde 8 meses

Muito bom! Obrigada, tudo seria bem mais fácil e até dando muito mais espaço à “magia” do fazer acontecer, tocando até a concretização das referidas expetativas…

Resposta
    Paulo Martins

    Paulo Martins Desde 8 meses

    Obrigado Ana

Helder Martins Desde 8 meses

Paulo, este tema é de grande pertinência e “utilidade” nas relações interpessoais – seja qual fôr a sua natureza, sem dúvida. Na medida em que a ‘intermediação tecnológica’ assume cada vez mais um protagonismo – sem precedentes – a ficção a que as relações se propiciam na cabeça de cada um (“expectativas”), parece aumentar a potencial geração de frustrações insolúveis. Esse ‘estado’ potencia-se como ‘condição’ e promove o frustrado para o niilismo, para a evitação social, para a “substituição tecnológica” *.
O tele-trabalho, a facilidade anytime&anywhere, a mundialização também das relações de trabalho, merecem a atenção equilibrante dos Gestores, promovendo nos seio das organizações o uso de uma das aptidões mais humanas que temos: a Comunicação.
E o teu contributo promove a melhoria da sua Eficácia.
Como tu dizes, ‘um abraço grande’! Helder M

Resposta
    Paulo Martins

    Paulo Martins Desde 8 meses

    Obrigado Helder, pela tua partilha.

Mónica Corceiro Desde 8 meses

Claro e muito conciso. Como sempre, consegues tornar simples o que antes parecia complexo. Obrigada!

Resposta
    Paulo Martins

    Paulo Martins Desde 8 meses

    Obrigado eu…

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